A força da culpa

Um dos paradoxos da liderança foi reconhecido recentemente pelos estudiosos do tema. “Até os anos de 1990, os aspectos reconhecidos como fatores de liderança eram chamados os cinco grandes”. Esse modelo de personalidade de líderes dominada a psicologia desde a década de 1960. Ele descrevia os grupos compostos por cinco traços e era abreviado pelo acrônimo OCEAN (em inglês), diz Taya R. Cohen, em seu artigo na edição de janeiro/fevereiro de 2017 da revista Scientific American Mind (p.34).

Os traços da OCEAN: Abertura para experiências, Consciencioso, Extrovertido, Agradável e Neurótico. Essas palavras compunham o quadro que até então se considerava a base do comportamento dos grandes líderes.

Estudos mostraram que de 1990 em diante começou-se a buscar uma compreensão mais apurada para o comportamento dos líderes. E em 2007, um novo modelo com o acrônimo, HEXACO (em inglês) emergiu apoiado por diversas pesquisas em mais de dez linguagens, diz Cohen.

Nesse novo modelo, fizeram a substituição do conceito de OCEAN para HEXACO: Honestidade, Emotividade, Extroversão, Consciente e Aberto. Repare que a palavra “neurótico” foi trocada por “emocional”, e acrescentou-se um sexto fator: a “honestidade-humildade”.

Esse acréscimo da sexta qualidade, a “honestidade-humildade”, veio confirmar uma das características importantes dos líderes atuais. Percebeu-se que honestidade e humildade traziam uma consciência e uma culpa como fatores proeminentes em seus personagens, protegendo-os dos desvios do bom comportamento.

E, posteriormente, alguns testes em alunos de MBA mostraram que os sujeitos com avaliações altas na característica de culpa se tornaram líderes mais efetivos no julgamento de seus supervisores, clientes e pares. Isso foi explicado, pela percepção de altos graus de compromisso de seus atores. Eles não apenas se responsabilizavam por suas ações, mas também pelas de seus pares e equipes. Seus sensos de culpa traziam responsabilidade, além de honestidade-humildade. As equipes avaliadas compostas por personagens com essas características tinham uma liderança efetiva, concluíram. E finalizando, em 2012 Reinout de Vries, da VU University Amsterdam, concluiu que as empresas grandes e pequenas lideradas por CEOs com alto nível de honestidade-humildade eram consideradas mais éticas por seus funcionários.

É necessário explicar que a palavra “culpa” aqui usada traduz um senso de responsabilidade pessoal como marca do caráter e não tem o sentido corrente que damos a ela de dor e sofrimento relacionados a eventos anteriores. São traços de responsabilidade e não traumas adquiridos na caminhada da vida, esclarece o artigo.

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