No Brasil, a vida vale um par de tênis

“Bispo, meu filho foi assassinado aos 14 anos por causa de um tênis, acabamos de enterrá-lo”, disse D. Maria Aparecida.

Este foi o último abraço que eu dei neste sábado ás 17h, em Santa Maria, cidade satélite de Brasília.
Com lágrimas nos olhos, tentei transmitir um pouco de amor, carinho e conforto aquela mãe desesperada. Mais uma das milhares de mães que perderam seus filhos na luta contra o crime e a marginalidade.
Aquela mãe me disse:- “Meu filho queria um tênis no dia de seu aniversário. Ele queria muito, a qualquer custo… pelo menos ele descansou deste mundo de dor e injustiça”, ela se consola. “Eu assisto o Senhor na TV, todos os dias e a bispa também. É o melhor momento do nosso dia lá em casa “.
Com lágrimas nos olhos e uma dor imensa no coração, dei-lhe um beijo e á sua filhinha de 7 anos me despedi das duas. Não tem como evitar o tamanho da dor que toma o coração, quando se vive momentos como estes.
Somado a toda a dor da miséria, da desesperança de mudanças significativas em suas vidas, e de conviver com um mundo injusto e desigual. Estas mães que formam o exército do verdadeiro Brasil nos olham e nos assistem, com um misto de alegria e descrença.
Nos olhos embaçados deste Brasil, vemos o retrato de séculos de injustiças e desigualdades sociais. De um Brasil governado pelos ricos, para os ricos.
Onde os pobres e carentes, não existiam. Ou se existiam, eram para servir e apenas miseravelmente sobreviver. Damos a eles apenas o direito de viver bem no limite da existência. Apenas o mínimo em nível de salários, de educação e de saúde. Apenas o mínimo. É o Brasil do mínimo.
Este Brasil gera pessoas como D. Aparecida, aos milhares e centenas. Todos os dias. Com a responsabilidade de um mandato, me pergunto todos os dias: -“Qual o melhor caminho para ajudar este povo sofrido? Qual a melhor maneira de estender a mão para este Brasil que chora e que lenta e solitariamente perece, sem esperança de mudanças significativas em suas vidas e na de seus filhos? Como trazê-los para dentro do muro do apartheid social, que invisivelmente separa nossos filhos?
Temos que lutar. Temos que trabalhar, com amor e fé no Deus Eterno, que sempre intervém em nossa estória para que Ele mais uma vez nos visite e nos traga a esperança e o resgate que tanto precisamos neste país.


Bispo Rodovalho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *