“Participação política de pastores”, artigo que saiu hoje na Folha de São Paulo

Recentemente, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) emitiu resolução tipificando o que chamou de “abuso de poder religioso” como uma das mais novas formas de abuso de poder que pode influenciar os pleitos eleitorais. Juntamente com abuso de poder financeiro, essa tipificação de abuso aparece nestas eleições atuais como um novo componente.

Ao subtrair excessos que, de fato, precisariam ser coibidos, essa nova modalidade de crime eleitoral foi desnecessária e desmedida. Primeiramente por tipificar apenas o abuso de poder religioso como influenciador desproporcional em uma eleição. Se o objetivo é cercear aqueles que supostamente poderiam influenciar multidões, por que não foram incluídos radialistas, comunicadores, dirigentes de clubes de futebol, esportistas , artistas e outros influenciadores?

Mas, se o propósito foi apenas inibir a influência da participação de pastores e religiosos de modo geral, a decisão é ainda mais estranha e sem sentido.

É natural que tenhamos a liberdade de lutar pelo que acreditamos. A democracia está sustentada sobre essa premissa. E nossa Constituição Federal, bem como qualquer outra de algum Estado democrático de Direito, garante essa liberdade a todos. Como essa é nossa Carta Magna, não pode e não deve ser atropelada, mesmo por um fórum conceituado como o TSE, que tem como missão organizar e regularizar os pleitos eleitorais.

Como se pode pedir que um religioso se omita em seu papel de influenciador pelos valores e princípios em que acredita? Por que, em um mundo de total liberdade de opiniões, se impõe a uma parcela de profissionais –que, por força de sua missão, se envolve com multidões– alijar- se de suas convicções e de sua função principal de influenciador?

Não nos esqueçamos de que a partidarização pelos religiosos já se resolve pela própria natureza do contraditório. Em todas as igrejas existem pessoas de todos os partidos e de diversas tendências. O próprio público participante dessas aglomerações limita e restringe eventuais excessos.

A essência do Evangelho que levamos e pregamos é uma proposta de estilo de vida baseado na honestidade, no amor ao próximo e na verdade. Aliás, princípios nos quais a Revolução Francesa se baseou e sob os quais foram estabelecidos os direitos humanos.

A história tem mostrado que a democracia é sustentável apenas em nações com raízes cristãs.

Sociedades que não foram moldadas pelos valores de solidariedade, justiça e amor ao próprio possuem dificuldade de aceitarem resultados contrários às suas expectativas. E, por isso, tornam-se intolerantes, até mesmo como forma de governo.

Portanto, não parece razoável cercear uma parcela da nossa liderança em uma sociedade democrática –isso fere sua essência e vai na contramão de nossa missão.

A famosa oração de Jesus Cristo chamada Pai Nosso nos ensina a pedir e a lutar para que a vontade de Deus seja feita na Terra como no céu, o que, em uma sociedade democrática, se faz presente, sim, pela participação e liberdade de influência de todos os segmentos nas ações políticas.

Robson Rodovalho
Físico, teólogo e presidente da Igreja Sara Nossa Terra e da Concepab (Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *